Ainda sinto o sabor Da intensidade das palavras Ainda me perco na imensidão Daquelas encruzilhadas Audazes e cristalinas Criadas
Por vontades tão bravas
Ainda me lembro Do brilho dos dias Da música da lua De todas aquelas nuances Que perfumavam o ar E tornavam a linha do horizonte Numa emoção Meia despedida e nua
Guardo na gaveta dos meus sonhos Um pedaço de papel Que rescrevo com um lápis Palavras Frases Conexões invisíveis Como se fossem pingos de mel
Por vezes Neste mar conturbado Distancio-me de tudo Procuro por algo que não sei E sem saber encontro Aquele trilho esquecido Que na vertigem da febre Eu percorri e caminhei
São assim os ventos Que transportam as folhas Num Outono cinzento Onde jazem entre elas Pedaços soltos De criações imaginadas Nos labirintos profundos Dos meus pensamentos
São assim os sons O ranger insistente das texturas Os cânticos doridos da matéria Os silvos quase mudos Que assolam a minha Alma
É como se eu estivesse No parapeito do muro Que envolve o miradouro Da encruzilhada dos tempos
É como se Cada capítulo Já fosse previsível Nos meandros Dos meus pensamentos
Será este um dom Ou será este o preço De quem sem saber Orbita no vácuo das monções Toca as extremidades das estações E sente uma afinidade particular No universo aleatório das colorações
Mas na verdade É todo o caminho Que define o processo É todo o achado precioso Na poeira Do velho pergaminho Que está a necessidade Do avanço e do retrocesso
É como se o trapezista Soubesse Que a distancia do chão É grande Que a concentração se faz Na capacidade Do olhar distante E no ímpeto Que lentamente emerge Em cada instante
Tudo vozes Ecos projectados no espaço Imagens definidas
Quando os humanos São verdadeiramente humanos Quando os Seres são verdadeiros Nas palavras Nos actos e nos dizeres
Quando os homens Reconhecem O lado verdadeiro da Vida Quando as pessoas Se confrontam Com os abismos e as vertigens Sem medida
Quando o esplendor Da essência Transborda na borda do copo Quando a emoção Entrava a garganta Quando a lágrima insolente Escorre na face de alguém Que pelos outros Agradece e sente
Quando se vê a determinação Em prol do resgate do outro Quando se vê a energia A Fé e a Alegria Quando o Milagre É noite É dia Quando o sonho desejado É a realidade Enfeitada de fantasia
Quando me orgulho De Alguém Que nunca vi Que não conheço
No desvendar destes tempos Desvendo também Outros lugares desconhecidos Que habitam neste circulo Como de um regresso se tratasse À partilha genuína Aos momentos Quase esquecidos do Amor
Chega dos meus tormentos Chega desses amargos momentos Em que só eu sei A cor do meu sangue Nas suas várias tonalidades e pigmentos
Julgo que é possível Continuar Sim continuar algo Que sempre considerei único E inesquecível
Nos claustros Nas torres Nos degraus Onde observo as estalagmites Não tem sido fácil
Não Não tem sido fácil Exterminar os fantasmas Criar os anticorpos Proceder à regeneração Revogar os conceitos Destituir enraizados pensamentos Desistir de padrões Segurar ferozmente As mais importantes Reflexões E corajosamente manter Os mais distintos e valorosos Ensinamentos
O que posso dizer Perante tudo isto ?
Nada
Absolutamente nada
Remeter-me ao Silencio
E não dizer nada
E nas horas do silencio profundo
Nas horas em que se faz noite Em cada canto do mundo
Este silencio Que vale mais Que todas as frases Que sobrepõe-se A todos os pensamentos esculpidos A todos os travos amargos A todos os actos declarados E a que todos os desejos inibidos
Este silencio Que traduz os voos esquecidos Que se exprime Em dialecto desconhecido E que é o eco contido De algo profundo Que perde o seu sentido
Este silencio Que é fruto de tantas coisas Antigas viagens Vertiginosas romagens Auto-estradas Rápidas e sinuosas Para as mais elevadas paisagens
Este silencio Que representa o fio quebrado A circunferência Das vontades e dos sonhos Que se transformam Cada vez mais Num deserto árido Cada vez menos resguardado
Este silencio Este cansaço de tudo
Esta nave Esta carruagem Este passageiro clandestino Que habita Um corpo conturbado
Esta voz surda Esta saturação Que por vezes excede Todas as componentes da razão
Nestas confluências De novas constatações Que fazem emergir à superfície Novas considerações
Mais não posso que Reposicionar A minha Consciência Numa realidade De novos horizontes Onde se reinventam Novas abordagens Novas tonalidades Para as mais importantes conexões
Se a ditadura do Ego Há muito perdeu sua influência Não havendo espaço Para a sequência Da sua cruel e habitual turbulência
Reposicionou-se Em seu lugar Uma outra Consciência Na experiência das revelações E das demais observações Nas suas coordenadas Nas suas directrizes Que fornecem Uma vasta dimensão Em cada janela Que se abre à visão Nas suas múltiplas faces Em que é construída A sua infinita abrangência
Assim sendo E perante a angústia provocada Perante uma sociedade Que sem qualquer protecção Se tornou globalizada E sem quaisquer regras Ficou à mercê De ser cada vez mais estropiada
Se por vezes penso Que não tenho o suficiente Nada devo fazer Senão procurar o que preciso Dentro de mim mesmo
Se algum sonho meu fracassar E eu perceber Que esse não passava De mais uma fantasia Terei que descobrir outro sonho Que caiba na minha própria realidade
Se eu estiver angustiado Inseguro Perdido no marasmo pantanoso Dos mais fatais pensamentos Devo desligar-me totalmente Dessa situação Até encontrar de novo O Lugar do Meu Centro
E acima de tudo Nunca me deixar abalar Pelos meus êxitos Nem pelos meus fracassos Pois o fluxo da vida Transporta sempre os dois Enquanto simples estados transitórios E puramente temporários
É neste mapa Que eu sigo o meu trilho
É nesta confluência Onde em permanência Emergem Todas as minhas considerações