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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Será mais acolhedora ...




Partilhei em baixo dois textos de dois Escritores , dois textos especiais na sua retórica e na sua dimensão e profundidade intencional .

Resgatando o conceito e as palavras de vários Pensadores actuais e contemporâneos , o universo das comunicações, não poderá ser nunca somente um lugar onde na sua grande parte expressiva e criativa seja o que é .

Talvez deva ser também um espaço de luminosidade onde a estrada de quem a percorre , se vai encontrando com os textos , as citações e as Palavras, de Pensadores , Escritores , Sábios decifradores dos códigos desses trilhos que constroem a pauta musical da Vida , e que neste aproveitamento nos possam elevar a patamares superiores da nossa Existência criando rumos e níveis de Crescimento e de conceção de interpretação do mundo , com olhos mais profundos , digamos num modo garimpeiro das substancias e dos sedimentos que nos envolvem em cada momento subjetivo e relativo da nossa individual realidade .

Podemos encontrar nestes Pensadores , Escritores , Gente que Pensa e Reflecte a inconsistência e a consistência humana , estes Seres que desenvolvem o Pensamento e que nos encaminham e nos movem no sentido de uma aproximação e de uma Existência cada vez mais baseada na criação, na reflexão , abrindo as portas de um lugar de difícil acesso e de permanência , mas de autenticidade e de valores que orbitam acima do comum e do vago superficial .

Quando o Escritor Pedro Chagas Freitas define o “Abraço “ no seu conteúdo “ Eu Sou Deus “ , ele refere-se ao Deus que habita em todos nós , nessa luz Divina que em todos nós permanece , transformando-nos em Deuses da nossa Existência pessoal … nunca numa perspetiva de pedantismo ou de endeusamento que pode ser interpretado pelos menos atentos ou pobres de espírito .
Assim , o Abraço foi absolutamente e poderosamente decifrado e definido de uma forma soberba e plena de inspiração e de afeto .

Mia Couto , no seu texto fabuloso “ Carta “ , apresenta de uma forma magistral a revolta de um homem com ideais e sonhador , que se afirma perante as maldades e as castrações que nos querem impor .


A estrada será sempre mais enriquecida e se tornará mais acolhedora , se estas Mentes Brilhantes e indutoras de Reflexão e Cultura, estiverem presentes no nosso quotidiano e no nosso horizonte particular , e assim nos ajudarem a ampliar cada vez mais a nossa Consciência individual.


Luis Sousa



terça-feira, 15 de setembro de 2015

Braços que se fundem ...




O Abraço

O abraço. O abraço que parece estar a acabar. O abraço raro, o abraço verdadeiro. Da mãe que recebe o filho, da mulher que recebe o marido, do amigo que recebe o amigo. O abraço que não se pensa, que não se imagina. O abraço que não é; o abraço que tem de ser. O abraço que serve para viver. O abraço que acontece – e que não se esquece. Um dia hei-de passar todo o dia a ensinar o abraço. A visitar as escolas e a explicar que abraçar não é dois corpos unidos e apertados pelos braços. Abraçar é dois instantes que se fundem por dentro do que une dois corpos. Abraçar é um orgasmo de vida, um clímax de partilha – uma orgia de gente. Abraçar é fechar os olhos e abrir a alma, apertar os músculos e libertar o sonho. Abraçar é fazer de conta que se é herói – e sê-lo mesmo. Porque nada é mais heróico do que um abraço que se deixa ser. Porque nada é mais heróico do que ter a coragem de abraçar, em frente do mundo, em frente da dor, em frente do fim, em frente da derrota. Abraçar é a vitória do homem sobre o homem, da pessoa sobre a pessoa. Abraçar é celebrar a humanidade. Abraçar vale mais do que amar. Abraçar é o amor que se ultrapassa. O amor que se transmuta. O amor que se apaixona por se ser amor. Abraçar é mais do que o amor, mais do que a paixão, mais do que o tesão, a excitação ou a pulsão. Abraçar é para além do que abraça, para além do que é abraçado, para além do que sente ou que é sentido. Abraçar não se sente nem se sente muito. Abraçar é. E pode ser tudo aquilo que não é – mas que não deixa de ser. Pode ser o abraço que é “vem, ama-me”, pode ser o abraço que é “adoro-te, meu filho”, pode ser o abraço que é “obrigado por estares aí, meu amigo”. O abraço pode ser todos os abraços do mundo. E cada abraço é todos os abraços do mundo. E cada abraço é todos os mundos num abraço, em dois pares de braços que se tocam, que se fundem, que se encontram e que se elevam. Para lá do que sentem, para lá do que entendem. Um abraço verdadeiro é mentira, alucinação – e não é isso que o inibe de ser a mais verosímil das verdades, a mais palpável das realidades. Um dia, hei-de passar todo o dia a ensinar o abraço. Nas escolas, nas estradas, nos becos de urina e de lágrimas. O abraço. A unir o menino traquina e o menino traquinado, a criança que humilha e o desgraçado humilhado. O abraço. A unir. A prostituta que se rende e o gestor que se vende. O empregado que resiste e o cabrão que insiste. Todos. Num abraço. O abraço resolveria todos os problemas do mundo. E no entanto não deixaria de não resolver problema algum. E é sempre assim, no mundo, na vida, no sonho, na dor. É sempre assim e nunca deixará de ser assim: é aquilo que nada resolve que tem de resolver tudo o que há para resolver. Não tem nada que saber apesar de ninguém o saber: é aquilo que não serve para nada que serve para tudo.


Pedro Chagas Freitas, in 'Eu Sou Deus'


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Simplesmente olhar de frente ...




Carta

(digo dos que se ditam:
a minha defesa
são os vossos punhais)

Quando me disseram «não se vem à vida para sonhar» passei a odiar-vos. Para vos matar escolhi materiais inacessíveis ao meu ódio. Em mim fizestes despertar a irreparável urgência de ferir.

Descobri a vossa intenção: decepar as minhas raízes mais profundas, obrigar-me à cerimónia das palavras mortas. Preferi reiniciar-me: na solidão me apaguei. Estava só para me encher de gente, para me povoar de ternura. Eu queria simplesmente olhar de frente a verdade das pequenas coisas: esta água vem de onde, quem teceu este linho, que mãos fizeram este pão?

Desloquei-me para tudo ver de um outro lado: levei o meu olhar, o desejo de um princípio infinitamente retomado. Ganhei sonoridade nas vozes que me habitavam silenciosamente. Entre mar e terra eu preferia ser espuma, ter raiz e poente entre oceano e continente.

O tempo, por vezes, morria de o não semear. Terras que golpeava com ternura eram feridas que em mim se abriam para me curar. Eram terras suspeitas, acusadas de futuro. Outras vezes eram mãos de um corpo que ainda me não nascera. Surgiam da obscuridade para afastar a água e nela me deixar tombar. Tecido que escapava da mais bela das lavadeiras eu ia pelo rio, a corrente insuflando-me e eu deixando-me arrastar com fingida contrariedade.



Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'



domingo, 13 de setembro de 2015

As Preciosas ...





Quero e quererei sempre mais da Vida , não me escondo nem me esconderei nunca de tudo o que quero , do que é Bom , do que é Belo ,do que é Verdadeiramente Inspirador, Motivador , Verdadeiro e Catalisador dos meus Pensamentos e dos meus Sentidos , dos elementos etéreos da minha Alma e de todos os Significados que Encontro no firmamento do meu Olhar …

Distancio-me cada vez mais da mesquinhez , da hipocrisia , do ciúme nefasto , da falsidade , da pobreza de espírito, e de qualquer outra insipiência humana que invariavelmente vou encontrando …

Por isso afasto-me ao mínimo sinal , pois tudo isso me faz mal, como idealista de Pensamento e de formação ao longo destas décadas , tudo isso infelizmente , ainda me vai causando alguma frustração e alguma revolta.( pelos vistos,o meu Caminho de Aprendizagem será longo nesta materia )

Mas pela milionésima vez sei que não há volta a dar , a realidade é esta , e no registo do segmento desta realidade vazia e oca de que falo , a carência de satisfação dos demais Egos fala sempre mais alto, os conceitos atraiçoam-se no instante seguinte à sua nascença , os Valores Verdadeiros são meros resquícios de um Tempo estropiado pela carência , e pela necessidade ( mesmo que efémera) de satisfação no imediato que anestesia a verdade intrínseca de cada subjetiva realidade, e assim inevitavelmente, as opções fecham-se,e eu nesta neblusidade envolvente questiono-me sem respostas ... restam-me os muros,as cercas e as vedações que circundam estas pequenas terras do meu Mundo , espaços Meus, partilhado com os Meus , onde quero que a minha Existência Aconteça e permaneça de forma mais igual possível a mim mesmo, mais Verdadeira e mais Simples …

Peneiro as “Pedras” , e só restarão ( se restarem ?! ), as luminosas,as preciosas , aquelas que independentemente do seu Lugar no Tempo e no Espaço ,tenham na sua essência uma Aura mais Genuína e mais Verdadeira …



Luis Sousa



sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Incontornável ...




Uma sociedade inteira vive mergulhada num mundo de facilidades e aparências, afogada em sms, mails, blogues e redes sociais, onde procura criar uma estranha forma de vida e de relacionamento humano, que garante o contacto e o sucesso imediato e dispensa o incómodo que é enfrentar a vida real, sem ser a coberto do anonimato ou do disfarce hipócrita, e sem ter de assumir as consequências dos seus actos nem o vazio de passar por aqui sem ter feito nada de útil para os outros.



Jornal Expresso / Em 2009.04.18
Miguel Sousa Tavares


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Horizontes ...




Entre nós e o destino , existe um bilião, trezentas mil virgulas, pontos de exclamação, pontos de interrogação que se desmultiplicam, e um horizonte de linhas contínuas que subsistem e de forma cadenciada se substituem , criando assim uma infinidade de prismas , ângulos , cores e geometrias anunciando possibilidades …

Entre nós, pessoas, mundo e realidade , a distância que parece prevalecer, é aquela que repousa no substrato da equação resultante da ponte entre a realidade que se vai desvanecendo do ontem e a realidade que emerge e se afirma no presente , essa mesmo que se impõe em cada momento … e os contornos resistentes que desenharam os Lugares, as Escarpas , as Planícies , os Bastiões e as Paisagens da nossa Verdade.

Esse substrato, é também o sangue e a seiva descendente que veio a montante, é a areia, a terra molhada com cheiro a barro , o rebento seco transformado em palha, a poeira remanescente das mutações , os pigmentos aleatórios , que misturados com a água do rio , do mar e da chuva , formam a argamassa da nossa génese, que assim absorveu ínfimas partículas, moléculas , átomos que resultam em sinapses e conceções químicas emergentes em cada uma das nossas perceções .

Nesta conclusão generalizada, em que o pensamento se deixa resvalar para uma metamorfose intimista, só me resta continuar a Agradecer a imensa fortuna de tantas coisas impagáveis e impalpáveis com que tenho sido Agraciado pelos Deuses que me querem Bem, e fazer tudo para que em cada ponto de miragem da minha momentânea paisagem , continue sempre a procurar encontrar os Caminhos visíveis , subtis e invisíveis, que construam e propaguem o rastilho da simples Felicidade …



Luis Sousa



quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Luz e Sombra ...




Uma porta entre aberta, a claridade que desperta e a sombra da contraluz que repousa inerte na madeira do soalho …

Observo esta imagem e vem-me ao pensamento como tudo se interliga na experimentação e nas particularidades das nossas vidas, onde as sombras e as luzes dançam de mãos dadas ao som dos improvisos , em notas de piano difusas e cristalinas, que nos vão transportando pelas curvas , sinuosidades , declives e ascendências deste rio em que navegamos …

Luz e sombra, contrastes e tonalidades que intimamente no labirinto dos nossos pensamentos e das nossas interpretações perante este mundo em que vivemos, podemos atribuir relevâncias e significados, guardando uma multiplicidade de imagens e momentos … mas que por vezes, na nossa própria alienação e triste ausência alimentada pela maciça superficialidade que nos cerca, simplesmente ignoramos e nada vemos …

Mas elas, as luzes e as sombras, permanecem e estão sempre presentes, talvez para se afirmarem aos nossos olhos e à nossa Consciência , e nos fazerem ver que elas de facto existem, independentemente de tudo, dos contextos, das fatalidades , das circunstancias e das texturas que envolvam as vias dos nossos caminhos …

Por detrás de uma sombra, existirá sempre uma Luz a que se seguirá uma outra sombra, e no decorrer dos vários roteiros haverá sempre fragmentos de Luzes que emergem de cada sombra, fragmentos onde as tonalidades se revezam ciclicamente … mas que no final de cada capítulo, e após o peneirar dos eventos,as sombras perdem tonalidades, só restando estrelas e preciosidades luminosas de Saber, Compreensão, visão e Conhecimento …

A aceitação, o respeito e o reconhecimento desta existência permanente, beneficia e fornece um aporte de extraordinária importância para quem introspetivamente se consciencializa, se apazigua, e se relaciona assertivamente com as suas Luzes e com as suas sombras …


Luis Sousa