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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Braços que se fundem ...




O Abraço

O abraço. O abraço que parece estar a acabar. O abraço raro, o abraço verdadeiro. Da mãe que recebe o filho, da mulher que recebe o marido, do amigo que recebe o amigo. O abraço que não se pensa, que não se imagina. O abraço que não é; o abraço que tem de ser. O abraço que serve para viver. O abraço que acontece – e que não se esquece. Um dia hei-de passar todo o dia a ensinar o abraço. A visitar as escolas e a explicar que abraçar não é dois corpos unidos e apertados pelos braços. Abraçar é dois instantes que se fundem por dentro do que une dois corpos. Abraçar é um orgasmo de vida, um clímax de partilha – uma orgia de gente. Abraçar é fechar os olhos e abrir a alma, apertar os músculos e libertar o sonho. Abraçar é fazer de conta que se é herói – e sê-lo mesmo. Porque nada é mais heróico do que um abraço que se deixa ser. Porque nada é mais heróico do que ter a coragem de abraçar, em frente do mundo, em frente da dor, em frente do fim, em frente da derrota. Abraçar é a vitória do homem sobre o homem, da pessoa sobre a pessoa. Abraçar é celebrar a humanidade. Abraçar vale mais do que amar. Abraçar é o amor que se ultrapassa. O amor que se transmuta. O amor que se apaixona por se ser amor. Abraçar é mais do que o amor, mais do que a paixão, mais do que o tesão, a excitação ou a pulsão. Abraçar é para além do que abraça, para além do que é abraçado, para além do que sente ou que é sentido. Abraçar não se sente nem se sente muito. Abraçar é. E pode ser tudo aquilo que não é – mas que não deixa de ser. Pode ser o abraço que é “vem, ama-me”, pode ser o abraço que é “adoro-te, meu filho”, pode ser o abraço que é “obrigado por estares aí, meu amigo”. O abraço pode ser todos os abraços do mundo. E cada abraço é todos os abraços do mundo. E cada abraço é todos os mundos num abraço, em dois pares de braços que se tocam, que se fundem, que se encontram e que se elevam. Para lá do que sentem, para lá do que entendem. Um abraço verdadeiro é mentira, alucinação – e não é isso que o inibe de ser a mais verosímil das verdades, a mais palpável das realidades. Um dia, hei-de passar todo o dia a ensinar o abraço. Nas escolas, nas estradas, nos becos de urina e de lágrimas. O abraço. A unir o menino traquina e o menino traquinado, a criança que humilha e o desgraçado humilhado. O abraço. A unir. A prostituta que se rende e o gestor que se vende. O empregado que resiste e o cabrão que insiste. Todos. Num abraço. O abraço resolveria todos os problemas do mundo. E no entanto não deixaria de não resolver problema algum. E é sempre assim, no mundo, na vida, no sonho, na dor. É sempre assim e nunca deixará de ser assim: é aquilo que nada resolve que tem de resolver tudo o que há para resolver. Não tem nada que saber apesar de ninguém o saber: é aquilo que não serve para nada que serve para tudo.


Pedro Chagas Freitas, in 'Eu Sou Deus'


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Simplesmente olhar de frente ...




Carta

(digo dos que se ditam:
a minha defesa
são os vossos punhais)

Quando me disseram «não se vem à vida para sonhar» passei a odiar-vos. Para vos matar escolhi materiais inacessíveis ao meu ódio. Em mim fizestes despertar a irreparável urgência de ferir.

Descobri a vossa intenção: decepar as minhas raízes mais profundas, obrigar-me à cerimónia das palavras mortas. Preferi reiniciar-me: na solidão me apaguei. Estava só para me encher de gente, para me povoar de ternura. Eu queria simplesmente olhar de frente a verdade das pequenas coisas: esta água vem de onde, quem teceu este linho, que mãos fizeram este pão?

Desloquei-me para tudo ver de um outro lado: levei o meu olhar, o desejo de um princípio infinitamente retomado. Ganhei sonoridade nas vozes que me habitavam silenciosamente. Entre mar e terra eu preferia ser espuma, ter raiz e poente entre oceano e continente.

O tempo, por vezes, morria de o não semear. Terras que golpeava com ternura eram feridas que em mim se abriam para me curar. Eram terras suspeitas, acusadas de futuro. Outras vezes eram mãos de um corpo que ainda me não nascera. Surgiam da obscuridade para afastar a água e nela me deixar tombar. Tecido que escapava da mais bela das lavadeiras eu ia pelo rio, a corrente insuflando-me e eu deixando-me arrastar com fingida contrariedade.



Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'



domingo, 13 de setembro de 2015

As Preciosas ...





Quero e quererei sempre mais da Vida , não me escondo nem me esconderei nunca de tudo o que quero , do que é Bom , do que é Belo ,do que é Verdadeiramente Inspirador, Motivador , Verdadeiro e Catalisador dos meus Pensamentos e dos meus Sentidos , dos elementos etéreos da minha Alma e de todos os Significados que Encontro no firmamento do meu Olhar …

Distancio-me cada vez mais da mesquinhez , da hipocrisia , do ciúme nefasto , da falsidade , da pobreza de espírito, e de qualquer outra insipiência humana que invariavelmente vou encontrando …

Por isso afasto-me ao mínimo sinal , pois tudo isso me faz mal, como idealista de Pensamento e de formação ao longo destas décadas , tudo isso infelizmente , ainda me vai causando alguma frustração e alguma revolta.( pelos vistos,o meu Caminho de Aprendizagem será longo nesta materia )

Mas pela milionésima vez sei que não há volta a dar , a realidade é esta , e no registo do segmento desta realidade vazia e oca de que falo , a carência de satisfação dos demais Egos fala sempre mais alto, os conceitos atraiçoam-se no instante seguinte à sua nascença , os Valores Verdadeiros são meros resquícios de um Tempo estropiado pela carência , e pela necessidade ( mesmo que efémera) de satisfação no imediato que anestesia a verdade intrínseca de cada subjetiva realidade, e assim inevitavelmente, as opções fecham-se,e eu nesta neblusidade envolvente questiono-me sem respostas ... restam-me os muros,as cercas e as vedações que circundam estas pequenas terras do meu Mundo , espaços Meus, partilhado com os Meus , onde quero que a minha Existência Aconteça e permaneça de forma mais igual possível a mim mesmo, mais Verdadeira e mais Simples …

Peneiro as “Pedras” , e só restarão ( se restarem ?! ), as luminosas,as preciosas , aquelas que independentemente do seu Lugar no Tempo e no Espaço ,tenham na sua essência uma Aura mais Genuína e mais Verdadeira …



Luis Sousa



sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Incontornável ...




Uma sociedade inteira vive mergulhada num mundo de facilidades e aparências, afogada em sms, mails, blogues e redes sociais, onde procura criar uma estranha forma de vida e de relacionamento humano, que garante o contacto e o sucesso imediato e dispensa o incómodo que é enfrentar a vida real, sem ser a coberto do anonimato ou do disfarce hipócrita, e sem ter de assumir as consequências dos seus actos nem o vazio de passar por aqui sem ter feito nada de útil para os outros.



Jornal Expresso / Em 2009.04.18
Miguel Sousa Tavares


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Horizontes ...




Entre nós e o destino , existe um bilião, trezentas mil virgulas, pontos de exclamação, pontos de interrogação que se desmultiplicam, e um horizonte de linhas contínuas que subsistem e de forma cadenciada se substituem , criando assim uma infinidade de prismas , ângulos , cores e geometrias anunciando possibilidades …

Entre nós, pessoas, mundo e realidade , a distância que parece prevalecer, é aquela que repousa no substrato da equação resultante da ponte entre a realidade que se vai desvanecendo do ontem e a realidade que emerge e se afirma no presente , essa mesmo que se impõe em cada momento … e os contornos resistentes que desenharam os Lugares, as Escarpas , as Planícies , os Bastiões e as Paisagens da nossa Verdade.

Esse substrato, é também o sangue e a seiva descendente que veio a montante, é a areia, a terra molhada com cheiro a barro , o rebento seco transformado em palha, a poeira remanescente das mutações , os pigmentos aleatórios , que misturados com a água do rio , do mar e da chuva , formam a argamassa da nossa génese, que assim absorveu ínfimas partículas, moléculas , átomos que resultam em sinapses e conceções químicas emergentes em cada uma das nossas perceções .

Nesta conclusão generalizada, em que o pensamento se deixa resvalar para uma metamorfose intimista, só me resta continuar a Agradecer a imensa fortuna de tantas coisas impagáveis e impalpáveis com que tenho sido Agraciado pelos Deuses que me querem Bem, e fazer tudo para que em cada ponto de miragem da minha momentânea paisagem , continue sempre a procurar encontrar os Caminhos visíveis , subtis e invisíveis, que construam e propaguem o rastilho da simples Felicidade …



Luis Sousa



quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Luz e Sombra ...




Uma porta entre aberta, a claridade que desperta e a sombra da contraluz que repousa inerte na madeira do soalho …

Observo esta imagem e vem-me ao pensamento como tudo se interliga na experimentação e nas particularidades das nossas vidas, onde as sombras e as luzes dançam de mãos dadas ao som dos improvisos , em notas de piano difusas e cristalinas, que nos vão transportando pelas curvas , sinuosidades , declives e ascendências deste rio em que navegamos …

Luz e sombra, contrastes e tonalidades que intimamente no labirinto dos nossos pensamentos e das nossas interpretações perante este mundo em que vivemos, podemos atribuir relevâncias e significados, guardando uma multiplicidade de imagens e momentos … mas que por vezes, na nossa própria alienação e triste ausência alimentada pela maciça superficialidade que nos cerca, simplesmente ignoramos e nada vemos …

Mas elas, as luzes e as sombras, permanecem e estão sempre presentes, talvez para se afirmarem aos nossos olhos e à nossa Consciência , e nos fazerem ver que elas de facto existem, independentemente de tudo, dos contextos, das fatalidades , das circunstancias e das texturas que envolvam as vias dos nossos caminhos …

Por detrás de uma sombra, existirá sempre uma Luz a que se seguirá uma outra sombra, e no decorrer dos vários roteiros haverá sempre fragmentos de Luzes que emergem de cada sombra, fragmentos onde as tonalidades se revezam ciclicamente … mas que no final de cada capítulo, e após o peneirar dos eventos,as sombras perdem tonalidades, só restando estrelas e preciosidades luminosas de Saber, Compreensão, visão e Conhecimento …

A aceitação, o respeito e o reconhecimento desta existência permanente, beneficia e fornece um aporte de extraordinária importância para quem introspetivamente se consciencializa, se apazigua, e se relaciona assertivamente com as suas Luzes e com as suas sombras …


Luis Sousa




quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Simplicidade Surpreendente ...




Ao caminhar pelos veios de cada momento , não posso deixar de Acreditar cada vez mais que , grande parte dos dados que lançamos em cada amanhecer que vivemos , depende da forma como despertamos para o ar que respiramos , para as cores que nascem e se desenvolvem na luminosidade crescente , bem como na nossa própria capacidade de nos deixarmos surpreender pelo rasto imperceptível de profundidade e beleza que pode envolver a simplicidade de cada dia …

Tantos foram os momentos em que pude mais uma vez constatar que ,
ao abrir a minha Mente, o meu Corpo , a minha Alma, e o meu Espírito aos elementos básicos da Natureza , toda uma vertente embrionária de limpeza e purificação subtilmente se ia desenrolando em mim , coincidindo com um manto de energia pacífica, serena e holística que se ia instalando e preenchendo os espaços doridos e ocos do meu Ser …

Poder de alguma forma , comunicar com o deslumbramento e a sonoridade vigorosa do Mar , a Luminosidade da estrela Mãe na sua cadência natural,o movimento das Nuvens e a imensidão infinita do Céu, faz-nos regressar à nossa Verdadeira essência como seres conectados com os elementos , reconhecendo sempre que não haverá nunca nenhum instrumento do progresso ou fruto de uma qualquer tecnologia , que possa alguma vez substituir a magnitude e a perfeição desta intrínseca e genuína ligação superiormente instrutiva, holística e libertadora …


Nestes longos dias que passei , dei a mim próprio a oportunidade de confirmar mais uma vez , as minhas prioridades , as harmonias , os ritmos e os equilíbrios que são o fruto e o resultado das minhas mais substanciais opções …



Luis Sousa