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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Procurar o Sonho é Procurar a Verdade ...




A única realidade para mim são as minhas sensações.
Eu sou uma sensação minha.
Portanto nem da minha própria existência estou certo.
Posso está-lo apenas daquelas sensações a que eu chamo minhas.
A verdade?
É uma coisa exterior?
Não posso ter a certeza dela, porque não é uma sensação minha, e eu só destas tenho a certeza.
Uma sensação minha?
De quê?
Procurar o sonho é pois procurar a verdade, visto que a única verdade para mim, sou eu próprio.

Isolar-se tanto quanto possível dos outros é respeitar a verdade.


Fernando Pessoa, 'Textos Filosóficos'


terça-feira, 27 de outubro de 2015

Os nossos "Ricos" ...



A verdade é esta:
são demasiado pobres os nossos «ricos».
Aquilo que têm, não detêm.
Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros.
É produto de roubo e de negociatas.
Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram.
Vivem na obsessão de poderem ser roubados.
Necessitavam de forças policiais à altura.
Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia.
Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade.
Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem.


Mia Couto in “ Pensatempos “




sábado, 24 de outubro de 2015

Surto Vital ...




Sinto que um imenso surto vital irrompe na grande comunidade de espaço e de tempo em que estamos imersos.
Que ele é feito do esforço dos criadores, santos, poetas e sábios, nomeados ou não, que ao longo dos tempos fizeram dum pequeno sopro interior a epopeia da conquista da verdade e da liberdade que paira ao longo da história como sua e nossa justificação.
Sei que para a maioria das pessoas coisas destas nada significam, mas que há outras que fizeram da sua integração nesta epopeia a sua razão de viver.
Julgo que Deus estará em mim e eu nele enquanto for capaz de manter esta vontade vital de permanecer na força do seu vórtice criador.



António Alçada Baptista
in Peregrinação Interior I



quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Coisas sem princípio nem fim ...




(...) Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes.
Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos;
acredita na integridade da água, do vento, das estrelas.
Eu acredito na continuidade das coisas que amamos,
acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara,
para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos,
para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa,
para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido.

Nisto eu acredito:
na veemência destas coisas sem princípio nem fim,
na verdade dos sentimentos nunca traídos.


Miguel Sousa Tavares, in 'Não Te Deixarei Morrer, David Crockett '


terça-feira, 20 de outubro de 2015

Cessa de Correr !




Se não cessas de correr,
marulhando no ar tépido com as tuas mãos como natatórios,
olhando furtivamente tudo diante de que passas no meio-sono apressado, acontecer-te-á também um dia deixar passar diante de ti o carro.
Se te mantiveres firme, pelo contrário,
com o poder do teu olhar fazendo crescer as raízes em profundidade e em comprimento
- nada então te poderá eliminar
- em virtude não das raízes mas da força do teu olhar que escruta
- será então que verás o longínquo imutavelmente obscuro de onde nada pode surgir a não ser precisamente uma vez este carro que rola para ti,
que se aproxima, cada vez maior e que,
no próprio instante em que entras em tua casa,
enche o mundo enquanto mergulhas nele como uma criança no banco acolchoado de uma diligência
que corre através da tempestade e da noite.


Franz Kafka, in "Meditações"






segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Pergunta-me ...




Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer



Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'





domingo, 18 de outubro de 2015

A Palavra Mágica ...





Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.



Carlos Drummond de Andrade, in 'Discurso da Primavera'