Arquivo do blog

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Procuro-Te ...




Procuro-te

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.


Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"




quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Identidade Própria ...




Construir uma Personalidade

Nem todos estão predestinados a terem a oportunidade de criar a sua própria personalidade, a maioria permanece numa cópia de um tipo de personalidade, sem nunca chegarem à experiência de se tornarem um indivíduo com identidade própria. Mas aqueles que o conseguem, inevitavelmente descobrem que a luta pela personalidade envolve o conflito com as vidas normais das pessoas comuns e os valores tradicionais e convenções burguesas que defendem. A personalidade é o produto do confronto entre duas forças opostas, o impulso de criar uma vida própria, e a insistência do mundo que nos rodeia em que nos conformemos a ele. Ninguém consegue desenvolver uma personalidade a menos que esteja mentalizado para passar por experiências revolucionárias. A extensão dessas experiências difere, claro, de pessoa para pessoa, assim como a capacidade de conduzirem uma vida que é verdadeiramente pessoal e única.


Hermann Hesse, in 'Demian'




terça-feira, 22 de setembro de 2015

Escuta, Amor ...




Escuta, Amor

Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.

Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.

Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.

Escuta,
ouve.
Amor.
Amor.



José Luís Peixoto, in 'Abraço'







segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Febril Loucura ...




Aproximei-me de ti

Rocei o meu rosto no teu cabelo macio
Inalei esse aroma perfumado
Desse teu corpo inflamado

Momento único
Suspiraste ao vivê-lo

Os teus olhos observei
Segredos da tua boca escutei
Todos esses desejos abracei

Beijei-te
Senti o aveludado da tua pele
Tuas orelhas levemente mordisquei

Nessa tua boca carnuda
Mergulhei
Nesses teus lábios vagueei
Nesse teu corpo de mulher
Simplesmente viajei

Ao meu ouvido te chegaste
Na rouquidão da tua voz
Baixinho
Inconfessáveis desejos suplicaste

O mel dos teus seios
Saboreei
Teus mamilos
Ferverosamente suguei

Na doçura
Na mais completa e pura
Nessa imensa febril loucura
Tu me pediste

E eu desci
Desci
E desci

E desmesuradamente
Em todos os teus íntimos recantos


Eu Loucamente


Me perdi …




Luis de Sousa







Confidências ...




Em Portugal Há um Julgamento Estranho da Modéstia.



Batem-se palmas a quem basicamente diz que não é muito bom a fazer o que faz.

E quando alguém diz que tem confiança no que faz, utiliza-se uma palavra pejorativa: Arrogante !

Eu claramente tenho confiança no que faço, e nesse aspecto não sou modesto.

Agora, precisamente porque tenho essa confiança não me passa pela cabeça falar mal de alguém.

Não por eu ser um coração maravilhoso, mas porque seria perder tempo precioso para aquilo que tenho de fazer.



Gonçalo M. Tavares, in "MilFolhas (Público)"




domingo, 20 de setembro de 2015

Para além do imediato ....




Nada é eterno nem adquirido, tudo é fugaz e passageiro.

A ilusão,seja a de felicidade ou a de tristeza,é acreditar num horizonte fechado,
ao alcance da vista, que ignora ou finge ignorar os horizontes sucessivos que estão para além do imediato.


― Miguel Sousa Tavares, Não Te Deixarei Morrer, David Crockett





sábado, 19 de setembro de 2015

Em que dia nasceste ?




E quando nos beijávamos......

E eu perdia a respiração e, entre suspiros, perguntava:

Em que dia nasceste?

E respondias-me com a voz tremula:


Estou nascendo agora...



Mia Couto