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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Diz o Meu Nome ...




Diz o meu nome

pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome




Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'


terça-feira, 13 de outubro de 2015

O Outro Lado ...




Mais perto é a planura, a base das nossas imediatas necessidades, o trabalho, o alimento, o amor, a família, as relações que construímos ao longo do tempo, e tudo o resto que completa o ciclo e a matriz plana da nossa existência.

O outro lado, é a consequência da elevação, é a necessidade de gerir e compreender o lado invisível que nos guia, resgatar as vozes que nos habitam silenciosamente, procurar no mundo das realidades as faces do espírito e da alma, descodificar a potência emergente criativa, desencadear a busca de processos alternativos que propiciem a superação, o desenvolvimento de capacidades adormecidas e latentes que nesta encruzilhada e neste movimento, nos façam conhecer novos estádios de evolução.


Luis de Sousa - Excerto de " O Outro Lado "


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Cada Dia é Sempre Diferente dos Outros




Cada dia é sempre diferente dos outros, mesmo quando se faz aquilo que já se fez. Porque nós somos sempre diferentes todos os dias, estamos sempre a crescer e a saber cada vez mais, mesmo quando percebemos que aquilo em que acreditávamos não era certo e nos parece que voltámos atrás. Nunca voltamos atrás. Não se pode voltar atrás, não se pode deixar de crescer sempre, não se pode não aprender. Somos obrigados a isso todos os dias. Mesmo que, às vezes, esqueçamos muito daquilo que aprendemos antes. Mas, ainda assim, quando percebemos que esquecemos, lembramo-nos e, por isso, nunca é exactamente igual.
— Porquê, pai?
— Porque a memória não deixa que seja igual, mesmo que seja uma memória muito vaga, mesmo que seja só assim uma espécie de sensação muito vaga. É que a memória não é sempre aquilo que gostaríamos que fosse. Grande parte dos nossos problemas estão na memória volúvel que possuímos. Aquilo que é hoje uma verdade absoluta, amanhã pode não ter nenhum valor. Porque nos esquecemos, filho. Esquecemos muito daquilo que aprendemos. E cansamo-nos. E quando estamos cansados, deixamos de aprender. Queremos não aprender por vontade. Essa é a nossa maneira de resistir, mais ou menos, àquilo que nos custa entender. E aquilo que nos custa entender pode ter muitas formas, pode chegar de muitos lugares.
— Porquê, pai?
— Porque nos parece que é assim. Mas talvez não seja assim. Aquilo que nos custa entender é sempre uma surpresa que nos contradiz. Então, procuramos convencer-nos das mais diversas maneiras, encontramos as respostas mais elaboradas e incríveis para as perguntas mais simples. E acreditamos mesmo nelas, queremos mesmo acreditar nelas e somos capazes. Somos mesmo capazes. Não imaginas aquilo em que somos capazes de acreditar.
— Porquê, pai?
— Porque temos de sobreviver. Porque, à noite, a esta hora, temos de encontrar força para conseguirmos dormir, descansar, e temos de acreditar que no dia seguinte poderemos acordar na vida que quisemos, que desejámos. Temos de acreditar que poderemos acordar na vida que conseguimos construir e que essa vida tem valor, vale a pena. Muito mais difícil do que esse esforço é considerarmos que fomos incapazes, que não conseguimos melhor, que a culpa foi nossa, toda e exclusiva.

José Luís Peixoto, in 'Abraço'


domingo, 11 de outubro de 2015

Aquela Praia ...




Lembram-se ?
Lembram-se ?

Daqueles dias em que o tempo se sucedia , onde nada importava a não ser aquele mesmo dia …

Aqueles dias que vivíamos à margem de qualquer coisa, sem sabermos que estávamos a viver algo de verdadeiramente único, de colossal significado, onde tudo se desenrolava na pureza de cada instante , e na leveza com que nos brinda a alegria de ser imensamente feliz num lugar onde era possível existir na verdade e na inocência …

Aquela praia , na vastidão do azul sereno sem fim , e o branco do areal fino que nos amaciava os pés e tudo em volta era espaço , liberdade de sermos grandiosamente espontâneos e verdadeiros .




Luis de Sousa, Excerto de " Aquela Praia "

sábado, 10 de outubro de 2015

Para Atravessar Contigo o Deserto do Mundo ...





Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento


Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'




sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Lua Adversa ...






Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles, in 'Vaga Música'




quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Desígnios de uma Vida ...




Ser Diferente

A única salvação do que é diferente é ser diferente até o fim,
com todo o valor,
todo o vigor e toda a rija impassibilidade;
tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios de que ninguém usa;
não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores;
ser ele;
não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento;
no fim de todas as batalhas — batalhas para os outros, não para ele, que as percebe — há-de provocar o respeito e dominar as lembranças;
teve a coragem de ser cão entre as ovelhas;
nunca baliu;
e elas um dia hão-de reconhecer que foi ele o mais forte
e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos.


Agostinho da Silva, in 'Diário de Alcestes'